Há um zumbido muito agudo dentro da minha cabeça que nunca desaparece. Percebo mais quando tudo ao redor fica silencioso. Não sei exatamente o que é, mas, junto a isso, houve uma mudança gradativa na forma como me percebo e como vejo o mundo. Nos últimos anos, minha atenção se tornou mais aguçada. Pequenas coincidências envolvendo sons, imagens, cheiros ou momentos precisos trazem clareza. Meu corpo reage antes mesmo dos meus pensamentos. Quando algo não está alinhado, sinto imediatamente. Quando está, surge uma sensação de coerência, às vezes acompanhada de sutis sensações físicas. A pintura é como permaneço honesto com essa percepção. Não começo com conceitos ou narrativas. Presto atenção. Quando estou totalmente presente, cor, gesto e forma surgem naturalmente, guiados sem palavras. Meu trabalho transita entre imagens figurativas e abstração porque minha experiência faz o mesmo. Algumas coisas pedem forma. Outras resistem. Não explico símbolos ou crenças. Estou traduzindo como é estar dentro de um processo invisível e contínuo de consciência e aprendizado.